NOSTALGIA

quarta-feira, 27 outubro, 2010 at 0:09 (alma, Coração vagabundo, Nostalgia, Poesia, Prazeres, Tempo) (, )

Às vezes
sinto-me triste
aparentemente sem nenhum motivo

Mas precisa de motivo?

Acho que as pessoas nas ruas
são tristes
por isso fico triste
É questão de ser solidário
com a melancolia delas

As pessoas em Dom Silvério
eram alegres e quentes

Acho que o sol
era mais gostoso lá
assim como o ar

Por isso eram poesias ambulantes

Se eu lá voltar
Trá-las-ei pra cá.

Link permanente Deixe um comentário

ELA, A FLORBELA

domingo, 10 outubro, 2010 at 3:20 (Coração vagabundo, Mulher, Nostalgia, Pecado)

nome de poeta,
nome de flor,
de nome e corpo és bela.

uma donzela, despida e só
numa cidadela; sem porta nem janela
sem sentinela
não, a ninguém ela dá trela

algumas cores,
imagino tambores
e estas perigosas curvas
a danas em meio a flores

ela, a Florbela!
Sei que se cansa só de olhar pela janela
tento ver o que a vista não alcança
mas assim fico, desejando o que não terei
como se fosse uma criança, nada direi

Link permanente Deixe um comentário

OS OUTROS

sexta-feira, 3 setembro, 2010 at 21:23 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Mundo, Nostalgia, Olhar, Palavras, Pessoas, Poesia) (, )

Eles riem
Comem, andam, choram
Famílias constituem

Eles param,
Ficam, olham, resmungam
Às vezes, falam
Quase nunca, sorriem

Eles são,
Os outros…
Todos os dias, os outros eles serão…

Os outros são espelhos,
Por vezes, peguei me olhando num deles
Rosto espelhado pelas lágrimas
O sal das águas entupia os poros, deles…

Os outros
São apressados. Mas nem todos,
Alguns deles, desbotados, obstinados
Estão sempre espantados…

Eles me olham, sem me ver
Eles falam sem a boca mexer
Eles são e serão
Apenas os outros.

Eles estão
Sempre com a cabeça cheia
De coisas ou sabe-se lá o que
São eles, os outros do dia.

Link permanente Deixe um comentário

VINDIMA

sexta-feira, 4 junho, 2010 at 2:49 (Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Nostalgia, Poesia, Prazeres) (, )

A ma santé, 1995, Francine Van Hove

Há muito de mim por ai…
Estou espalhado por ai afora
Esqueci-me em vários lugares, várias deusas…
São pedaços de mim. E agora?

Há muito de mim no mundo…
Na noite,
esses pedaços esquecidos me assombram

Sinto-me recolhido, como se delas indefeso
Por descuido e vaidade,
transformaram-me em deidade

Agora, querem-me de volta
Estação vindima. Perdi minha frugalidade
Roubaram minha vicissitude e corpórea arquivolta
São deusas vertendo em jovialidade

Filhas de Pandora,
Obsecro pela minha letargia
Ainda não chegou minha hora
Não me tomes pela mão, ó nostalgia

Queda livre neste moinho
Dilacerado, quase invoquei por ela
É culpa de meu pai, “Baco e seu vinho”
Amarfanhou muito? Acende a vela

Venha, vamos as uvas colher
De todo, marcado já estou
Não seria factível, meus pedaços recolher
Fico agora, com o vinho que me restou

Link permanente Deixe um comentário

ANEDOTÁRIO….

sexta-feira, 23 abril, 2010 at 23:05 (Coração vagabundo, Desejos, Nostalgia, Poesia, Sentimentos, Tempo) ()

Foto extraída do Blog "O Equador das Coisas"

O anedotário humano, trigueiro e solitário
Inocente, matuto. Um pequeno otário.
De menino vadio, saliente
Para mancebo da palavra delinqüente

De passos incertos, perversos
Concerto de anedotas, fala rouca.
Um “passo”, por não saber a resposta
Planos reversos

Barro anforal, mãos deleitadas.
Do toque cálido ao frio argiloso
Forma rotunda, daquelas mãos oriundas.
Um sorriso contido ao segurar o receptáculo barroso

Um presente vazio que aguarda ser preenchido.
Nas mãos do menino, um desejo mesquinho.
Anedotas.

Link permanente Deixe um comentário

A PALO SECO

quinta-feira, 18 fevereiro, 2010 at 0:36 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Nostalgia, Saudades, Tempo) (, , )

20 anos! Riscou 20 linhas pouco tortas sobre o papel amarelado que se escondia cerca de 7400 dias dentro da caixinha de madeira da infância guardada no âmago dele.

Era um pergaminho, pouco velho e amassado que continha todo o roteiro escrito da sua vida até ali. Um pedaço do pergaminho que dera a ele o seu avô.

Na sua infância, aprendeu que a vida era simples, bastava não ter medo dela. Aquele sinhô, velho com as pernas frágeis e as mãos já pouco trêmulas, chamado José Veríssimo Vigiano era – ainda é e sempre será – o sol daquelas montanhas verdeadas a perder de vista. Seu herói.

20 anos! Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho…

O filme tinha partes em preto e branco, mas era por que ele, seu avô, gostava de Mazzaropi então escrevera uma cena monocromática. É neste ato, perde-se a fala. Perde-se o poeta matuto…

E quando a chuva caia, aquele cheiro de terra molhada típico daquelas terras, faziam viajar seus pensamentos. A relva o acolhia como se fosse um menino ao acalento de sua mãe.

Dizendo o que ninguém ouvia, ouvindo quem nunca dizia… Aquele velho tinha um mundo apenas seu! Ninguém entrava… Nem incomodava…

O jovem, por sua vez, falante como aquele pássaro que o despertava pela manhã, sonhava com o tempo corrido, com o futuro prometido… Tinha saudades do tempo por ele não vivido.

20 anos! Transformava-se 21… Naquele caminho de terra, pés descalços, estilingue nas mãos, um chapéu de palha, uma calça rasgada e um rosto gentil. Menino sonhador.

Sobre o luar descobria seu caminho. Só desvendara porque o pedaço de papel que o dera seu avô só se fazia nítido sob os olhos da lua. Lucidez contrafeita.

Ainda leva junto de si aquele velho pedaço de pergaminho amarelado…

Um tanto de dias… Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho… Uma vida.

Samuel Vigiano

Link permanente Deixe um comentário