BANHO

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:44 (Coração vagabundo, Devaneios, Mulher, Pecado, Poesia, Prazeres, Sexo) (, )

"O Banho, Francisco Panachão"

“Me leva para o banho?”
disse com a voz trêmula
sabe, um banho é algo mágico

Por vezes
me peguei tomando as maiores decisões
da minha puta vida
no banho

A primeira vez que ejaculei
foi no banho
a primeira vez que chorei –
por estar ferido por dentro–
foi no banho

Um banho é como escrever poesia
sempre sai algo novo
e o melhor banho é aquele da madrugada
nada houve além do seu silêncio

Um banho quente
é como uma noite de sono
um banho frio
parece uma noite de sonhos

A primeira vez que notei
que
independente do estado
o pau era uniforme, torto e monstruoso
foi no banho

A primeira vez
que me apaixonei por uma música
estava no banho
também estava lá
quando
pela primeira vez
odiei uma música

O banho é uma poesia
sempre inacabada

Eu? não
não a levei para o banho
ela me levou…
a poesia.

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INTRUSO

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:22 (Coração vagabundo, Mulher, Pecado, Poesia) (, )

"S/T, Víctor Tajes Martíns"

Antes, ainda nem existia
agora, é boca, lábios, olhos
de um sorriso nefasto,
de um escuro misterioso
de um nada… foi assim

De pés cobertos
mãos desinquietas
de brilho no escuro
pude ouvir tua respiração
consistente te denunciar

Um cheiro de flor
um silêncio e calor
uma imagem de amor
que não me pertence

Um intruso na poesia alheia
saio para não deixar rastro
Eu não sou um da tua aldeia

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POST’IT

domingo, 10 outubro, 2010 at 4:05 (Coração vagabundo, Mulher, Poesia, Sentimentos, Tempo)

post’it…
tudo o que ela tinha para me dizer
cabia num post’it amarelo
colado na primeira página do meu livro
onde as palavras gritavam

como se fosse um funeral,
procurei guardar as palavras
antes que elas me guardassem

simples como um anel,
de tão doces,
amargas como fel.

aquele livro,
não mais voltarei a ler,
aquela moça,
nunca mais voltarei a ver.

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ELA, A FLORBELA

domingo, 10 outubro, 2010 at 3:20 (Coração vagabundo, Mulher, Nostalgia, Pecado)

nome de poeta,
nome de flor,
de nome e corpo és bela.

uma donzela, despida e só
numa cidadela; sem porta nem janela
sem sentinela
não, a ninguém ela dá trela

algumas cores,
imagino tambores
e estas perigosas curvas
a danas em meio a flores

ela, a Florbela!
Sei que se cansa só de olhar pela janela
tento ver o que a vista não alcança
mas assim fico, desejando o que não terei
como se fosse uma criança, nada direi

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PIRATA

domingo, 13 junho, 2010 at 6:41 (Coração vagabundo, Desejos, Mulher, Pecado, Poesia) (, , , , )

La fleur de vin, 1996, Francine Van Hove

Na escuridão noturna, ela chegava
Em meio ao sol iluminado, ela estava
Apossava se, compelidamente, da massa nervosa
Assim a fazia sem nenhuma prosa

Como numa odisséia, introduzida por Homero, ladrões.
Pirateava, ela sugava idéias e pensamentos
Como num corso entre galeões,
O fazia refém dentro daqueles pensamentos.

Estava ele preso, quiçá indefeso
Entregue à pirata como se fosse uma taça de vinho
Comemorando a vitória, mas ainda ileso.
Um rosa, com mais espinho.

Usurpadora. Entrava naquele mar,
Patenteada de modelo ultrapassado,
Não tinha, ela, nada a doar.
Não tinha nem passado.

O código de conduta dos piratas,
Ela não seguia…
Ele, ainda um pilatas.
Talvez viesse de alguma monarquia.

Navegava em águas turvas
Atracou num porto desconhecido
Caminhou por tantas curvas
Roubando dele os pensamentos. Agora desfalecido

Pirata de olhos verdes e olhar carente
De pura intromissão, adentraste dele abismo
Levaste aqueles pensamentos, perdidos tão somente
Ficou, agora, apenas com o empirismo.

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VINDIMA

sexta-feira, 4 junho, 2010 at 2:49 (Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Nostalgia, Poesia, Prazeres) (, )

A ma santé, 1995, Francine Van Hove

Há muito de mim por ai…
Estou espalhado por ai afora
Esqueci-me em vários lugares, várias deusas…
São pedaços de mim. E agora?

Há muito de mim no mundo…
Na noite,
esses pedaços esquecidos me assombram

Sinto-me recolhido, como se delas indefeso
Por descuido e vaidade,
transformaram-me em deidade

Agora, querem-me de volta
Estação vindima. Perdi minha frugalidade
Roubaram minha vicissitude e corpórea arquivolta
São deusas vertendo em jovialidade

Filhas de Pandora,
Obsecro pela minha letargia
Ainda não chegou minha hora
Não me tomes pela mão, ó nostalgia

Queda livre neste moinho
Dilacerado, quase invoquei por ela
É culpa de meu pai, “Baco e seu vinho”
Amarfanhou muito? Acende a vela

Venha, vamos as uvas colher
De todo, marcado já estou
Não seria factível, meus pedaços recolher
Fico agora, com o vinho que me restou

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INCIDENTE

domingo, 23 maio, 2010 at 2:25 (Coração vagabundo, Inconsistências, Mulher) (, , )

Os pensamentos não se sintonizam com a possibilidade.
Nada faria com que ela dissesse a verdade.

O dia parece infinito, a noite parece um piscar de olhos.
As horas passam querendo contrariar tudo aquilo que parece bonito.

Uma palavra mal dirigida chocou-se com um aflito coração.
Um dano permanente: conhecer um rosto tão sorridente.

Um acidente mortal.

Escuta!

O coração é terra devoluta.
Um dia ainda vai cumprir sua função social.

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O DESAVISADO E O PECADO

sexta-feira, 2 abril, 2010 at 18:47 (Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Olhar, Pecado, Poesia) (, , , , )

Ela tem olhos cor de mel,
Sorriso de criança e lábios sabor de maçã.
Maçã do amor.

A pele como seda imperial
O cheiro de mirra do Egito
E o olhar de Medusa.

Tão fácil é perder-se naquele olhar,
Fatal e mortal.
Tão, mais ainda, mortal pra um desavisado como eu…

Como embrenhar no mar devoluto
Um galeão sem tripulação, uma guerra sem soldados
Uma dança sem música… Ele, desavisado.

Nenhum atrevido restou pra contar história
Contar história e avisar-lhe
Arriscavam no mar, sem mapa ou bússola pra guiar.
Nunca mais iria voltar.

O calor da mão dela derretia…
Derretia o gelo no copo de whisky dele.
A vida se esvaia concomitantemente com aquele gelo.

Do próprio veneno, o pecado
Do pecado, o desavisado
Do desavisado, a morte
Da morte, o amor.

O pecado do desavisado,
Provar o veneno.

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PELE ROSADA…

sábado, 27 março, 2010 at 13:27 (Coração vagabundo, Desejos, Mulher, Poesia, Sensualidade) (, )

Pernas cruzadas,
Pele levemente rosada,
Mãos delicadas com perfeitas unhas
Todas pintadas de esmalte rosa chiclete.

Tinha um olhar compenetrado,
Lia alguma coisa que a prendia.
Lábios avermelhados que pareciam receptivos,
Receptivos a um beijo carnal.

Um colar reluzente,
Talvez fosse diamante azul.

Tão concentrada…
Nem mesmo meu olhar desinquieto incomodava-a.
Seria Julia ou Ana?
Fico sem saber, menina da pele rosada.

Samuel Vigiano

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O OLHAR…

segunda-feira, 1 março, 2010 at 18:09 (Coração vagabundo, Desejos, Mulher, Olhar, Poesia, Prazeres, Sensualidade) (, , , )

Parecia a segunda parte que o toureiro executa, não prevista pelos espectadores

Do trivial olhar, do relance e casual contemplar, sobreveio o “olhar”.

Era aquela comunicação direta onde desejava ele enxergar seu reflexo na menina dos olhos dela.

Queria penetrar a retina, chegar ao cérebro e como uma mensagem deste, percorrer todo o sistema nervoso dela.

Queria sentir, telepaticamente, cada fio de cabelo se arrepiando como se fosse um vento visível se aproximar…

A temperatura do corpo dela… Ele queria sentir através do seu olhar.

Parecia terra devoluta, nunca pertencida a ninguém mesmo estando ocupada…

Tecidos, cores, brilhos, ouro… pele serena, lábios aveludados com minúsculas fissuras marcadas pelo leve batom.

Cruzavam-se novamente os globos oculares em meios de refração.
Efeito bullet-time…

Nessa fração de segundos descortinava-se o homen e a mulher.

Todos estavam por demasiado ocupados com seus pensamentos pra apreciarem o olhar penetrante lançado sobre ele, por sua vez, refletido…

Parecia não ter fim. Um clique no pause para ser ler minunciosamente cada detalhe, cada elemento subjetivo, cada palavra estampada naquele arrostar…

Ele se perdeu naquele olhar…

Em meio as cirradas bordas carnudas e vermelhas, que pareciam desenhadas recentemente, despontava um tímido sorriso.

Como o sol manifesta seu brilho acanhado em meio a cinzas nuvens, formavam-se os traços epidérmicos da alegria.

Nenhuma palavra, um olhar, muitas sensações.

Ela esqueceu seus olhos no dele…

(Samuel Vigiano)

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