SOLIDÃO

domingo, 7 novembro, 2010 at 15:20 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Poesia) (, )

Solidão…
é ouvir o próprio sangue
ranger por entre a carne crua,
escutar o som trépido e quente
que corre rápido pelas veias

Solidão…
é sentir o perfume do ar
e ver como o vento – da janela aberta –
acaricia suavemente a pele
e faz os poucos pelos dançarem…

Solidão…
é conversar com seus poros
que choram por seus pensamentos…
Pensamentos… que parece ópios penetrando
sua carne branca e devoluta

A solidão compele
o juízo desertor, sem pudor,
rasga a pele, movimenta células,
que dançam numa explosão atômica
tudo é calor!

Solidão,
é pessoa sem nome e endereço,
sem carne nem sangue,
que te toma, emprestado, seu corpo.

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TALVEZ

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:50 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Existência, Inconsistências, Poesia) (, , )

"Tange, Lucio Maia"

Talvez não…
talvez o sol
não goste de sair todos os dias

Talvez
eu não esteja tão bem assim

Talvez
o mais difícil seja acordar –
tenho tido sonhos tão bons –
e encarar este mundo sujo

Talvez
o timbre forte e alto da minha voz
não assuste tanto assim

Talvez
eu não seja tão bom assim

Talvez
não escreva apenas por vontade
ou mera liberalidade
mas sim
por pura necessidade.

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NOTA

domingo, 10 outubro, 2010 at 4:31 (Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências)

eu vejo aqueles que caminham,
entrelaçados como se quisessem mostrar
para todos que o abraço foi inventado
por eles

eu vejo aquela que lê,
solitária e confusa,
como se não soubesse ler

eu vejo aquelas que conversam
e se olham,
como se não se vissem há dez anos

eu vejo aquele que também lê,
mas olha para todos os lados
querendo ser notado

eu? Apenas vejo, penso…
tomo nota.
ninguém nota…

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SANGUE AZUL

domingo, 26 setembro, 2010 at 21:03 (alma, Coração vagabundo, Inconsistências, Poesia) (, )

Meu sangue é azul,
eu sei.
Eu vi. Sangue azul.
Mas não sou um aristocrata
Sou apenas um poeta
Sem nome; e de sangue azul

À meritocracia,
do sono do inocente.
Mérito jacobino de um país
de insanos, de um Estado palaciano

Escrevo para os ventos
Alguns cumprimentos
Sentimentos

Em folha amarela,
Vejo meu sangue esparramado
Em gotas,
foi derramado em vão.
Sangue azul de um varão.

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OS OUTROS

sexta-feira, 3 setembro, 2010 at 21:23 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Mundo, Nostalgia, Olhar, Palavras, Pessoas, Poesia) (, )

Eles riem
Comem, andam, choram
Famílias constituem

Eles param,
Ficam, olham, resmungam
Às vezes, falam
Quase nunca, sorriem

Eles são,
Os outros…
Todos os dias, os outros eles serão…

Os outros são espelhos,
Por vezes, peguei me olhando num deles
Rosto espelhado pelas lágrimas
O sal das águas entupia os poros, deles…

Os outros
São apressados. Mas nem todos,
Alguns deles, desbotados, obstinados
Estão sempre espantados…

Eles me olham, sem me ver
Eles falam sem a boca mexer
Eles são e serão
Apenas os outros.

Eles estão
Sempre com a cabeça cheia
De coisas ou sabe-se lá o que
São eles, os outros do dia.

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CEM PALAVRAS

domingo, 20 junho, 2010 at 1:23 (Coração vagabundo, Inconsistências, Palavras, Poesia) (, )

"Narcissus, Caravaggio, 1596"

Cem palavras
Descaradas
Desamparadas
Linhas estiradas
Trovoadas.

Cem palavras
Esmiuçadas
Ainda não faladas
Pensadas
Desnudadas.

Cem palavras
Meticulosamente preparadas
Ainda molhadas
De fel – cruel
Entregue de bandejas viradas.

Palavras mancas
Palavras feito alavancas
Descem pela garganta
No peito se planta.

Palavras agudas
No meu peito, espeta-me de tão pontudas
Contaminam meu sangue
Um coração langue.

Palavras desperdiçadas
Foi uma cilada
Palavras em rajada
Chacina de sentimentos.

Fiquei em fragmentos
Palavras sem ungüentos
Jogaram-me ao vento.

Palavras rasgadas
Revoada na enseada.

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INCIDENTE

domingo, 23 maio, 2010 at 2:25 (Coração vagabundo, Inconsistências, Mulher) (, , )

Os pensamentos não se sintonizam com a possibilidade.
Nada faria com que ela dissesse a verdade.

O dia parece infinito, a noite parece um piscar de olhos.
As horas passam querendo contrariar tudo aquilo que parece bonito.

Uma palavra mal dirigida chocou-se com um aflito coração.
Um dano permanente: conhecer um rosto tão sorridente.

Um acidente mortal.

Escuta!

O coração é terra devoluta.
Um dia ainda vai cumprir sua função social.

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INCONSISTÊNCIA

segunda-feira, 3 maio, 2010 at 0:14 (Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Poesia, Sentimentos) (, , )

Longe! Ecoa como um sino da capela
Espalha a vida esvairada
Um copo vazio, ainda molhado,
repousa tripudiando sobre a janela

Longe! De tão contumaz, parece papel e tinta
Unidos por uma tenaz
De tão nítido, parece enxergar de olhos vendados
Pensamentos esmagados.

Perto! De tão nítido, sente ainda o perfume repentino.
Tão doce como o suor afrodisíaco
Tão quente como gelo que queima a pele

Tão perto dos pensamentos
Tão longe do coração
Do corpo, soa como címbalo.
Da vida, voa com os pés no chão

O sino! Abstinência de palavra
Eu sinto! Inconsistência me soletrava…

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