SOLIDÃO

domingo, 7 novembro, 2010 at 15:20 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Poesia) (, )

Solidão…
é ouvir o próprio sangue
ranger por entre a carne crua,
escutar o som trépido e quente
que corre rápido pelas veias

Solidão…
é sentir o perfume do ar
e ver como o vento – da janela aberta –
acaricia suavemente a pele
e faz os poucos pelos dançarem…

Solidão…
é conversar com seus poros
que choram por seus pensamentos…
Pensamentos… que parece ópios penetrando
sua carne branca e devoluta

A solidão compele
o juízo desertor, sem pudor,
rasga a pele, movimenta células,
que dançam numa explosão atômica
tudo é calor!

Solidão,
é pessoa sem nome e endereço,
sem carne nem sangue,
que te toma, emprestado, seu corpo.

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ESTIVE, TALVEZ E SE

sábado, 30 outubro, 2010 at 20:13 (Coração vagabundo, Devaneios, Poesia) (, )

Estive,
pensando
um dia desses,
em tomar um drink com as estrelas,
bater um papo com o mar
e flertar com a noite…

Talvez,
eu também encontre
uma pedra achatada,
uma maravilha de dez metros de altura
e dez metros de base,
que é para sentir-me confortável

Se,
a lua for com minha cara,
sentará comigo a mesa
e ouvirá os meus segredos

Se,
tiver sorte,
terei algumas árvores retorcidas
por perto
assim como tinha Ray Smith

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TALVEZ

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:50 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Existência, Inconsistências, Poesia) (, , )

"Tange, Lucio Maia"

Talvez não…
talvez o sol
não goste de sair todos os dias

Talvez
eu não esteja tão bem assim

Talvez
o mais difícil seja acordar –
tenho tido sonhos tão bons –
e encarar este mundo sujo

Talvez
o timbre forte e alto da minha voz
não assuste tanto assim

Talvez
eu não seja tão bom assim

Talvez
não escreva apenas por vontade
ou mera liberalidade
mas sim
por pura necessidade.

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BANHO

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:44 (Coração vagabundo, Devaneios, Mulher, Pecado, Poesia, Prazeres, Sexo) (, )

"O Banho, Francisco Panachão"

“Me leva para o banho?”
disse com a voz trêmula
sabe, um banho é algo mágico

Por vezes
me peguei tomando as maiores decisões
da minha puta vida
no banho

A primeira vez que ejaculei
foi no banho
a primeira vez que chorei –
por estar ferido por dentro–
foi no banho

Um banho é como escrever poesia
sempre sai algo novo
e o melhor banho é aquele da madrugada
nada houve além do seu silêncio

Um banho quente
é como uma noite de sono
um banho frio
parece uma noite de sonhos

A primeira vez que notei
que
independente do estado
o pau era uniforme, torto e monstruoso
foi no banho

A primeira vez
que me apaixonei por uma música
estava no banho
também estava lá
quando
pela primeira vez
odiei uma música

O banho é uma poesia
sempre inacabada

Eu? não
não a levei para o banho
ela me levou…
a poesia.

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NOTA

domingo, 10 outubro, 2010 at 4:31 (Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências)

eu vejo aqueles que caminham,
entrelaçados como se quisessem mostrar
para todos que o abraço foi inventado
por eles

eu vejo aquela que lê,
solitária e confusa,
como se não soubesse ler

eu vejo aquelas que conversam
e se olham,
como se não se vissem há dez anos

eu vejo aquele que também lê,
mas olha para todos os lados
querendo ser notado

eu? Apenas vejo, penso…
tomo nota.
ninguém nota…

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SENTINELA DOS OLHOS

domingo, 10 outubro, 2010 at 3:18 (Coração vagabundo, Devaneios)

ela sorria e o céu se abria
seus dentes pareciam sentinelas
de alma e suas palavras
soavam como o sol
beijando as ondas do mar

saindo de traz das máscaras
saindo de mim
sou um mar de palavras virgens,
não defloradas em tinta azul
e papel amarelado

de tanto mar,
meu barco içou velas e por eles navegou
navegou até chegar ao monte
monte de gente
gente muda, sem face.
apenas vultos, sombras

daquilo que um dia foi,
menino vadio, corpo vazio
daquilo que hoje é,
homem ávido de palavras e corpos
daquilo que um dia será,
não se sabe

primavera em outono
flores e cerejas
ela e ele, num mar
de sofreguidão e calor
navegaram entre sentinelas,
sem portas ou janelas

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PECADO E VENENO

sábado, 2 outubro, 2010 at 0:58 (Coração vagabundo, Devaneios, Pecado, Poesia) (, , )

Minhas mãos tem o cheiro do pecado que eu inventei,
porém ainda não pequei..
O cheiro insano e profano,
de um pecado mundano.

Meus olhos tem a cor do veneno que criei,
porém ainda não envenenei…
Não gritei, não alimentei, não puxei, não pulei.

Nada fiz eu!
Apenas cheguei: Anui e, silente, admirei!

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OS OUTROS

sexta-feira, 3 setembro, 2010 at 21:23 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Mundo, Nostalgia, Olhar, Palavras, Pessoas, Poesia) (, )

Eles riem
Comem, andam, choram
Famílias constituem

Eles param,
Ficam, olham, resmungam
Às vezes, falam
Quase nunca, sorriem

Eles são,
Os outros…
Todos os dias, os outros eles serão…

Os outros são espelhos,
Por vezes, peguei me olhando num deles
Rosto espelhado pelas lágrimas
O sal das águas entupia os poros, deles…

Os outros
São apressados. Mas nem todos,
Alguns deles, desbotados, obstinados
Estão sempre espantados…

Eles me olham, sem me ver
Eles falam sem a boca mexer
Eles são e serão
Apenas os outros.

Eles estão
Sempre com a cabeça cheia
De coisas ou sabe-se lá o que
São eles, os outros do dia.

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VINDIMA

sexta-feira, 4 junho, 2010 at 2:49 (Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Nostalgia, Poesia, Prazeres) (, )

A ma santé, 1995, Francine Van Hove

Há muito de mim por ai…
Estou espalhado por ai afora
Esqueci-me em vários lugares, várias deusas…
São pedaços de mim. E agora?

Há muito de mim no mundo…
Na noite,
esses pedaços esquecidos me assombram

Sinto-me recolhido, como se delas indefeso
Por descuido e vaidade,
transformaram-me em deidade

Agora, querem-me de volta
Estação vindima. Perdi minha frugalidade
Roubaram minha vicissitude e corpórea arquivolta
São deusas vertendo em jovialidade

Filhas de Pandora,
Obsecro pela minha letargia
Ainda não chegou minha hora
Não me tomes pela mão, ó nostalgia

Queda livre neste moinho
Dilacerado, quase invoquei por ela
É culpa de meu pai, “Baco e seu vinho”
Amarfanhou muito? Acende a vela

Venha, vamos as uvas colher
De todo, marcado já estou
Não seria factível, meus pedaços recolher
Fico agora, com o vinho que me restou

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INCONSISTÊNCIA

segunda-feira, 3 maio, 2010 at 0:14 (Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Poesia, Sentimentos) (, , )

Longe! Ecoa como um sino da capela
Espalha a vida esvairada
Um copo vazio, ainda molhado,
repousa tripudiando sobre a janela

Longe! De tão contumaz, parece papel e tinta
Unidos por uma tenaz
De tão nítido, parece enxergar de olhos vendados
Pensamentos esmagados.

Perto! De tão nítido, sente ainda o perfume repentino.
Tão doce como o suor afrodisíaco
Tão quente como gelo que queima a pele

Tão perto dos pensamentos
Tão longe do coração
Do corpo, soa como címbalo.
Da vida, voa com os pés no chão

O sino! Abstinência de palavra
Eu sinto! Inconsistência me soletrava…

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