SOLIDÃO

domingo, 7 novembro, 2010 at 15:20 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Poesia) (, )

Solidão…
é ouvir o próprio sangue
ranger por entre a carne crua,
escutar o som trépido e quente
que corre rápido pelas veias

Solidão…
é sentir o perfume do ar
e ver como o vento – da janela aberta –
acaricia suavemente a pele
e faz os poucos pelos dançarem…

Solidão…
é conversar com seus poros
que choram por seus pensamentos…
Pensamentos… que parece ópios penetrando
sua carne branca e devoluta

A solidão compele
o juízo desertor, sem pudor,
rasga a pele, movimenta células,
que dançam numa explosão atômica
tudo é calor!

Solidão,
é pessoa sem nome e endereço,
sem carne nem sangue,
que te toma, emprestado, seu corpo.

Anúncios

Link permanente Deixe um comentário

NOSTALGIA

quarta-feira, 27 outubro, 2010 at 0:09 (alma, Coração vagabundo, Nostalgia, Poesia, Prazeres, Tempo) (, )

Às vezes
sinto-me triste
aparentemente sem nenhum motivo

Mas precisa de motivo?

Acho que as pessoas nas ruas
são tristes
por isso fico triste
É questão de ser solidário
com a melancolia delas

As pessoas em Dom Silvério
eram alegres e quentes

Acho que o sol
era mais gostoso lá
assim como o ar

Por isso eram poesias ambulantes

Se eu lá voltar
Trá-las-ei pra cá.

Link permanente Deixe um comentário

TALVEZ

sábado, 16 outubro, 2010 at 21:50 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Existência, Inconsistências, Poesia) (, , )

"Tange, Lucio Maia"

Talvez não…
talvez o sol
não goste de sair todos os dias

Talvez
eu não esteja tão bem assim

Talvez
o mais difícil seja acordar –
tenho tido sonhos tão bons –
e encarar este mundo sujo

Talvez
o timbre forte e alto da minha voz
não assuste tanto assim

Talvez
eu não seja tão bom assim

Talvez
não escreva apenas por vontade
ou mera liberalidade
mas sim
por pura necessidade.

Link permanente Deixe um comentário

SANGUE AZUL

domingo, 26 setembro, 2010 at 21:03 (alma, Coração vagabundo, Inconsistências, Poesia) (, )

Meu sangue é azul,
eu sei.
Eu vi. Sangue azul.
Mas não sou um aristocrata
Sou apenas um poeta
Sem nome; e de sangue azul

À meritocracia,
do sono do inocente.
Mérito jacobino de um país
de insanos, de um Estado palaciano

Escrevo para os ventos
Alguns cumprimentos
Sentimentos

Em folha amarela,
Vejo meu sangue esparramado
Em gotas,
foi derramado em vão.
Sangue azul de um varão.

Link permanente Deixe um comentário

HUMANO

segunda-feira, 20 setembro, 2010 at 13:37 (alma, Pessoas, Poesia) (, )

“Tudo é humano”,
dizia Ronaldo,
enquanto mordia seu pão com pernil.
Eu lia Bukowski e bebia uma cerveja
quando ele sentou-se ao meu lado.

Ele acabara de beijar a mulher de sua vida
pela primeira vez.
Estava feliz.
Eu acabara de deixar uma mulher na esquina,
depois do teatro.
Estava confuso.

Dizia que ser humano é tudo que se move conscientemente
O que eu chamava de bizarro,
ele dizia: “humano”

“E aquelas mulheres ali?”
Perguntou.
“Zuadas”, eu disse.
Não, humanas. Disse ele.

Não existe nada zuado ou bizarro
Tudo é aceitável, humano.
Tudo é poesia.

Link permanente Deixe um comentário

OS OUTROS

sexta-feira, 3 setembro, 2010 at 21:23 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Inconsistências, Mundo, Nostalgia, Olhar, Palavras, Pessoas, Poesia) (, )

Eles riem
Comem, andam, choram
Famílias constituem

Eles param,
Ficam, olham, resmungam
Às vezes, falam
Quase nunca, sorriem

Eles são,
Os outros…
Todos os dias, os outros eles serão…

Os outros são espelhos,
Por vezes, peguei me olhando num deles
Rosto espelhado pelas lágrimas
O sal das águas entupia os poros, deles…

Os outros
São apressados. Mas nem todos,
Alguns deles, desbotados, obstinados
Estão sempre espantados…

Eles me olham, sem me ver
Eles falam sem a boca mexer
Eles são e serão
Apenas os outros.

Eles estão
Sempre com a cabeça cheia
De coisas ou sabe-se lá o que
São eles, os outros do dia.

Link permanente Deixe um comentário

O LIMITE

sábado, 15 maio, 2010 at 17:17 (alma, Coração vagabundo, Desejos, Poesia) (, , )

O limite da terra é o mar
O limite da dor é gritar
O limite do calor é queimar
O que é o “limite”?

O limite do corpo é a física
O limite dos ouvidos é a música
O limite da raiva é chorar
O limite do silêncio é falar
O que é “limite”?

O limite da tinta é o papel
O limite da boca é o beijo
O limite do chão é o céu
O limite do desejo é o ensejo
O limite do limite é o verbo

O limite do verbo é conjugar
O limite do limite é conjugar o verbo amar.

Link permanente Deixe um comentário

TERRÁQUEOS INVISÍVEIS

quarta-feira, 10 março, 2010 at 0:05 (alma, Coração vagabundo, Existência, Mundo, Olhar, Pessoas, Sentimentos, Tempo) (, , , )

TERRÁQUEOS INVISÍVEIS

Coisas aconteciam lá fora…
Coisas que aqueles terráqueos deram o nome de vida.
Descobriu que lá fora, depois daquela janela, passavam vidas…

Por uma singela fração de segundos aquele vidro fumê foi o portal.
O portal que não podia ser transpassado
Que separava a vida lá fora e o pensamento ali dentro.

Como no mito da caverna, ele apenas via
Via que lá fora tinha alguma vida
Que ele estava sentado em cima de alguma pedra
Uma pedra chamada pensamento numa fração de segundo.

Naquele instante ele não existia
Extinguira-se juntamente com a existência humana.
Humanos? O que era isso? Aqueles terráqueos?

Eles não sabem o que fazem…
Não sentem as nuvens
Não vêem os pássaros
Não ouvem o sol…
Ah, eles não sabiam o que era isso…

Um monstro…
Um monstro sagrado e bonito.
Parece que ele pintava um quadro vivo
De repente surge ele, o mar…
Mar de gente invisível… Seriam esses os humanos?

Algo molha sua face
Era quente, parecia terráqueos…
Ou humanos invisíveis?
Era vermelho… Vermelho e viscoso.

Aquilo que brilhava no alto se foi…
Tudo tremia. Tripudiavam suas moléculas
Alarde coletivo de terráqueos invisíveis e perdidos no mar…
No mostro… Pista traiçoeira.
Acordou da vida…

Samuel Vigiano

Link permanente Deixe um comentário

A PALO SECO

quinta-feira, 18 fevereiro, 2010 at 0:36 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Nostalgia, Saudades, Tempo) (, , )

20 anos! Riscou 20 linhas pouco tortas sobre o papel amarelado que se escondia cerca de 7400 dias dentro da caixinha de madeira da infância guardada no âmago dele.

Era um pergaminho, pouco velho e amassado que continha todo o roteiro escrito da sua vida até ali. Um pedaço do pergaminho que dera a ele o seu avô.

Na sua infância, aprendeu que a vida era simples, bastava não ter medo dela. Aquele sinhô, velho com as pernas frágeis e as mãos já pouco trêmulas, chamado José Veríssimo Vigiano era – ainda é e sempre será – o sol daquelas montanhas verdeadas a perder de vista. Seu herói.

20 anos! Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho…

O filme tinha partes em preto e branco, mas era por que ele, seu avô, gostava de Mazzaropi então escrevera uma cena monocromática. É neste ato, perde-se a fala. Perde-se o poeta matuto…

E quando a chuva caia, aquele cheiro de terra molhada típico daquelas terras, faziam viajar seus pensamentos. A relva o acolhia como se fosse um menino ao acalento de sua mãe.

Dizendo o que ninguém ouvia, ouvindo quem nunca dizia… Aquele velho tinha um mundo apenas seu! Ninguém entrava… Nem incomodava…

O jovem, por sua vez, falante como aquele pássaro que o despertava pela manhã, sonhava com o tempo corrido, com o futuro prometido… Tinha saudades do tempo por ele não vivido.

20 anos! Transformava-se 21… Naquele caminho de terra, pés descalços, estilingue nas mãos, um chapéu de palha, uma calça rasgada e um rosto gentil. Menino sonhador.

Sobre o luar descobria seu caminho. Só desvendara porque o pedaço de papel que o dera seu avô só se fazia nítido sob os olhos da lua. Lucidez contrafeita.

Ainda leva junto de si aquele velho pedaço de pergaminho amarelado…

Um tanto de dias… Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho… Uma vida.

Samuel Vigiano

Link permanente Deixe um comentário

SONHO MOLHADO

sábado, 6 fevereiro, 2010 at 14:23 (alma, Amor, Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Poesia, Sensualidade) (, , , , , , , )

Fascinação esta que me persegue
Que me enclausura na teia do amor

Que me recolhe em pleno ninho e me leva até o seu calor…
Onde me apeteço por sua alma carnal sem pudor

Entrego-me ao seu encanto divinal e de candura
Percorremos os caminhos da sedução docemente e suavemente, absorvemo-nos

Absorvemo-nos tal qual papel virgem é fundido na tinta vermelha
Como um vinho sobre ele entornado

Despertamos sensações adormecidas e aprisionadas
A pele alva e delicada, tocada por mim
Os lábios aveludados beijados por ti

Minha pele agita-se ao sentir o doce toque de suas mãos
Meus poros exalam excitação, molham tuas mãos com o suor voluptuoso
Seus lábios aveludados parecem querer permanecer para sempre colados aos meus

Sugamos o sabor da vida, olho teus olhos cintilantes, retiro o desejo e a languidez

Sabor que sinto ao deslizar pela tua pele molhada com o nosso suor
Que sinto ao percorrer com minha boca sedenta o teu corpo estirado como se pedisse meu prazer
Como se fosse uma taça de vinho, aprecio vagarosamente teu prazer

No ar um odor, as pétalas de rosas que inalamos devagar. O leito repleto de amor,
Acolhe os amantes
Que se exploram
Que se amam
Que se desejam
Que se querem
Mas não se têm, porque do sonho acordam. Um em cada leito, sós.

Um sonho molhado
Sonho sonhado.

Samuel Vigiano

Link permanente Deixe um comentário

Next page »