CEM PALAVRAS

domingo, 20 junho, 2010 at 1:23 (Coração vagabundo, Inconsistências, Palavras, Poesia) (, )

"Narcissus, Caravaggio, 1596"

Cem palavras
Descaradas
Desamparadas
Linhas estiradas
Trovoadas.

Cem palavras
Esmiuçadas
Ainda não faladas
Pensadas
Desnudadas.

Cem palavras
Meticulosamente preparadas
Ainda molhadas
De fel – cruel
Entregue de bandejas viradas.

Palavras mancas
Palavras feito alavancas
Descem pela garganta
No peito se planta.

Palavras agudas
No meu peito, espeta-me de tão pontudas
Contaminam meu sangue
Um coração langue.

Palavras desperdiçadas
Foi uma cilada
Palavras em rajada
Chacina de sentimentos.

Fiquei em fragmentos
Palavras sem ungüentos
Jogaram-me ao vento.

Palavras rasgadas
Revoada na enseada.

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PIRATA

domingo, 13 junho, 2010 at 6:41 (Coração vagabundo, Desejos, Mulher, Pecado, Poesia) (, , , , )

La fleur de vin, 1996, Francine Van Hove

Na escuridão noturna, ela chegava
Em meio ao sol iluminado, ela estava
Apossava se, compelidamente, da massa nervosa
Assim a fazia sem nenhuma prosa

Como numa odisséia, introduzida por Homero, ladrões.
Pirateava, ela sugava idéias e pensamentos
Como num corso entre galeões,
O fazia refém dentro daqueles pensamentos.

Estava ele preso, quiçá indefeso
Entregue à pirata como se fosse uma taça de vinho
Comemorando a vitória, mas ainda ileso.
Um rosa, com mais espinho.

Usurpadora. Entrava naquele mar,
Patenteada de modelo ultrapassado,
Não tinha, ela, nada a doar.
Não tinha nem passado.

O código de conduta dos piratas,
Ela não seguia…
Ele, ainda um pilatas.
Talvez viesse de alguma monarquia.

Navegava em águas turvas
Atracou num porto desconhecido
Caminhou por tantas curvas
Roubando dele os pensamentos. Agora desfalecido

Pirata de olhos verdes e olhar carente
De pura intromissão, adentraste dele abismo
Levaste aqueles pensamentos, perdidos tão somente
Ficou, agora, apenas com o empirismo.

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VINDIMA

sexta-feira, 4 junho, 2010 at 2:49 (Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Nostalgia, Poesia, Prazeres) (, )

A ma santé, 1995, Francine Van Hove

Há muito de mim por ai…
Estou espalhado por ai afora
Esqueci-me em vários lugares, várias deusas…
São pedaços de mim. E agora?

Há muito de mim no mundo…
Na noite,
esses pedaços esquecidos me assombram

Sinto-me recolhido, como se delas indefeso
Por descuido e vaidade,
transformaram-me em deidade

Agora, querem-me de volta
Estação vindima. Perdi minha frugalidade
Roubaram minha vicissitude e corpórea arquivolta
São deusas vertendo em jovialidade

Filhas de Pandora,
Obsecro pela minha letargia
Ainda não chegou minha hora
Não me tomes pela mão, ó nostalgia

Queda livre neste moinho
Dilacerado, quase invoquei por ela
É culpa de meu pai, “Baco e seu vinho”
Amarfanhou muito? Acende a vela

Venha, vamos as uvas colher
De todo, marcado já estou
Não seria factível, meus pedaços recolher
Fico agora, com o vinho que me restou

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