A PALO SECO

quinta-feira, 18 fevereiro, 2010 at 0:36 (alma, Coração vagabundo, Devaneios, Nostalgia, Saudades, Tempo) (, , )

20 anos! Riscou 20 linhas pouco tortas sobre o papel amarelado que se escondia cerca de 7400 dias dentro da caixinha de madeira da infância guardada no âmago dele.

Era um pergaminho, pouco velho e amassado que continha todo o roteiro escrito da sua vida até ali. Um pedaço do pergaminho que dera a ele o seu avô.

Na sua infância, aprendeu que a vida era simples, bastava não ter medo dela. Aquele sinhô, velho com as pernas frágeis e as mãos já pouco trêmulas, chamado José Veríssimo Vigiano era – ainda é e sempre será – o sol daquelas montanhas verdeadas a perder de vista. Seu herói.

20 anos! Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho…

O filme tinha partes em preto e branco, mas era por que ele, seu avô, gostava de Mazzaropi então escrevera uma cena monocromática. É neste ato, perde-se a fala. Perde-se o poeta matuto…

E quando a chuva caia, aquele cheiro de terra molhada típico daquelas terras, faziam viajar seus pensamentos. A relva o acolhia como se fosse um menino ao acalento de sua mãe.

Dizendo o que ninguém ouvia, ouvindo quem nunca dizia… Aquele velho tinha um mundo apenas seu! Ninguém entrava… Nem incomodava…

O jovem, por sua vez, falante como aquele pássaro que o despertava pela manhã, sonhava com o tempo corrido, com o futuro prometido… Tinha saudades do tempo por ele não vivido.

20 anos! Transformava-se 21… Naquele caminho de terra, pés descalços, estilingue nas mãos, um chapéu de palha, uma calça rasgada e um rosto gentil. Menino sonhador.

Sobre o luar descobria seu caminho. Só desvendara porque o pedaço de papel que o dera seu avô só se fazia nítido sob os olhos da lua. Lucidez contrafeita.

Ainda leva junto de si aquele velho pedaço de pergaminho amarelado…

Um tanto de dias… Contou-os gota a gota. Rodou o filme numa caixinha de manivela com desenho a traço vazado em branco sobre chapado azul. Um sonho… Uma vida.

Samuel Vigiano

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SONHO MOLHADO

sábado, 6 fevereiro, 2010 at 14:23 (alma, Amor, Coração vagabundo, Desejos, Devaneios, Mulher, Poesia, Sensualidade) (, , , , , , , )

Fascinação esta que me persegue
Que me enclausura na teia do amor

Que me recolhe em pleno ninho e me leva até o seu calor…
Onde me apeteço por sua alma carnal sem pudor

Entrego-me ao seu encanto divinal e de candura
Percorremos os caminhos da sedução docemente e suavemente, absorvemo-nos

Absorvemo-nos tal qual papel virgem é fundido na tinta vermelha
Como um vinho sobre ele entornado

Despertamos sensações adormecidas e aprisionadas
A pele alva e delicada, tocada por mim
Os lábios aveludados beijados por ti

Minha pele agita-se ao sentir o doce toque de suas mãos
Meus poros exalam excitação, molham tuas mãos com o suor voluptuoso
Seus lábios aveludados parecem querer permanecer para sempre colados aos meus

Sugamos o sabor da vida, olho teus olhos cintilantes, retiro o desejo e a languidez

Sabor que sinto ao deslizar pela tua pele molhada com o nosso suor
Que sinto ao percorrer com minha boca sedenta o teu corpo estirado como se pedisse meu prazer
Como se fosse uma taça de vinho, aprecio vagarosamente teu prazer

No ar um odor, as pétalas de rosas que inalamos devagar. O leito repleto de amor,
Acolhe os amantes
Que se exploram
Que se amam
Que se desejam
Que se querem
Mas não se têm, porque do sonho acordam. Um em cada leito, sós.

Um sonho molhado
Sonho sonhado.

Samuel Vigiano

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